sábado, 29 de janeiro de 2011

O aroma do Jasmim ou o sabor da Democracia

Com um efeito de dominó, começam a ruir sucessivamente as ditaduras há muito instaladas no mundo árabe.
Depois da Tunísia, e do afastamento compulsivo do presidente Ben Ali, é agora a vez do Egipto, onde o povo nas ruas pede o afastamento do “eterno” Hosni Mubarak e a abertura do regime, com novas e melhores oportunidade para o futuro.
Outras revoltas se anunciam e por certo, o mapa político do sul do mediterrâneo dentro em breve será completamente diferente.
Há uma imensa legitimidade nesta revolta, ela é a reacção natural de quem vive numa pobreza extrema, e vê os líderes políticos a eternizarem-se no poder, engrossando as suas fortunas ao ritmo da passagem dos anos em que vão impondo os seus regimes, transformando os regimes republicanos em verdadeiras monarquias absolutistas.
É e será sempre legítima uma revolta, quando ela tiver raízes nos anseios de pão, dignidade, liberdade e justiça.
O que hoje assisto na Tunísia e no Egipto, a chamada Revolução de Jasmim, leva-me inevitavelmente às memórias de Portugal em 1974 na Revolução dos Cravos, e a 1989 em Praga, na chamada Revolução de Veludo, pois em todos estes casos há um povo que se revolta contra um regime totalitário, clamando pela sua liberdade e há uma cumplicidade entre forças militares e civis, a qual torna ainda mais legítima a própria revolta.
Em todos estes processos revolucionários, anoto a força que hoje a Internet tem no mundo, e a forma como o facebook e os blogs conseguiram congregar as multidões que saíram às ruas. Não será também por acaso que tudo isto surge depois do WikiLeaks ter revelado os negócios e os detalhes da existência principesca da família de Ben Ali, e que ainda ontem o governo Egípcio provocou um “apagão” na Internet.
Uma última palavra para a reacção dos países ocidentais, as chamadas democracias dadas como adquiridas, que estão agora a sugerir que os regimes se abram à vontade dos populares e lhes possam oferecer a democracia que anseiam. Estranha hipocrisia de quem durante anos viveu e conviveu de perto com estes regimes.
Só estive uma vez no norte de África, foi em Marrocos em 2001. Fiquei instalado num dos melhores hotéis que até hoje pude conhecer e fiquei horrorizado com a pobreza e a degradação que existia para lá das paredes do hotel.
Apesar da enorme atracção pela história desses locais, jurei a mim próprio que jamais voltaria a um local onde o luxo e o bem-estar que me fossem facultados fossem feitos à custa da miséria e da exploração de outros. Como se diz na minha terra: assim nada me serve de proveito.
Aplaudo pois esta luta e oxalá o futuro lhes traga a todos, para além do aroma do Jasmim, o gosto doce da democracia e da liberdade.

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