quinta-feira, 31 de março de 2011

Banhos de luz


Conheço o Manuel há mais tempo do que me conheço a mim próprio.
Segundo a minha e a mãe dele, e não poderá haver fontes mais seguras, éramos bebes e já nos encontrávamos no dispensário da Santa Casa da Misericórdia, a fazer os chamados “banhos de luz”. Estes, parece-me, mais não eram do que radiações postiças e substitutos de banhos de mar e sol, que o Estado Novo se encarregava de nos facultar, a nós, meninos do interior com pais sem tempo e sobretudo dinheiro para nos fazer aproximar da beira mar em época estival.
E quando começo a lembrar-me de mim, não vejo uma nesga de vida em que o Manuel não apareça.
Andámos juntos no infantário na sala da Irmã Celeste, fizemos a primária em paralelo, o ciclo preparatório e o liceu.
Crescemos a brincar juntos, a falar e a partilhar tudo, o riso, o choro, e nas cumplicidades das nossas vidas, amadurecemos ao mesmo tempo que entre nós nascia e crescia a maior amizade do mundo, a amizade que está para além de tudo e que é resistente e à prova de tudo.
Quando o destino me trouxe para junto do mar, o Manuel ficou no interior, mas nunca deixámos de comunicar intensamente porque viver a amizade é tão importante para a vida como respirar.
Era o tempo em que as palavras trocadas eram escritas em papel de carta e postal, o que as tornava menos voláteis do que as palavras de hoje, veiculadas de forma tão simples mas também tão breve, em telemóveis e SMSs.
Guardo na gaveta das coisas importantes, as nossas cartas desse tempo porque elas são pedaços da minha história com a qual tenho o privilégio de me reencontrar de cada vez que as releio.
O Manuel faz hoje 45 anos e é e será sempre o meu melhor amigo, sendo simultaneamente um dos melhores e maiores Homens que conheço.
Cumpre o seu destino sendo professor do ensino básico em Vila Viçosa, porque o seu coração de eterno menino será sempre o melhor mestre para fazer crescer Homens grandes e bons.
Nos seus filhos, Fábio e Joana, o Manuel prolonga a sua vida e constrói um legado precioso para a humanidade. É o melhor pai do mundo, porque o melhor pai não é o que oferece vida apenas no dia em que se é gerado ou nasce, o melhor pai do mundo é o que oferece vida em todos os dias e em todos momentos da vida.
Da minha parte, espero que o Manuel esteja sempre à minha espera em Vila Viçosa, para podermos continuar a subir a Avenida, a descer a Corredoura, a subir a Rua de Cambaia e a descer a Rua de António Homem, ao ritmo das conversas e dos temas que vão compondo as nossas vidas.
Com um amigo assim, tudo se torna mais fácil e melhor, ou não fosse a amizade um banho de luz que dá cor e riso à alma.

2 comentários:

  1. Parabéns ao Manuel! Do teu belo e quase poético texto sublinho: "simultaneamente um dos melhores e maiores Homens que conheço".

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  2. Muito Obrigado Bom Amigo. Conta sempre comigo!

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