domingo, 13 de março de 2011

Homens da Luta

Para um “Eurofan” como eu, a recente vitória dos Homens da Luta no Festival RTP da Canção 2011 foi à partida um sério revés, um golpe profundo, um pecado mortal, a invasão de um espaço sagrado, e confesso que a sensação que tive só encontraria par na de um católico fervoroso que um dia chega a Fátima e descobre que a Basílica foi transformada numa Feira Popular. Perdoem-me o exagero da comparação.
A primeira questão que se me colocou teve a ver com o interesse da RTP nesta vitória, porque de facto, desde o inicio, foi aberta pela estação de serviço público, uma auto-estrada para a vitória dos Homens da Luta. Desde a selecção desta canção por um comité de peritos, juntamente com mais 23 canções que ficaram sujeitas ao crivo dos internautas que então seleccionaram as 12 que foram a concurso no palco do Teatro Camões, até às escolhas dos júris distritais, alguns deles dando a pontuação máxima a esta canção, enquanto outros distinguiam canções que à partida o público nunca iria votar através do televoto, como foi o caso de uma sonolenta canção número oito cantada por uma intérprete de nome Inês que se esqueceu de que para ir a um Festival é necessário saber cantar, pelo menos um bocadinho, e claramente se percebe que tudo foi preparado a rigor para que esta canção ganhasse o passaporte até à Alemanha.
O interesse da RTP nesta vitória fica claro se atentarmos que na última semana, o Festival da Canção foi mais falado do que nos últimos trinta anos e se anteciparmos que a audiência do Eurofestival será infinitamente maior que nos últimos anos, trazendo à RTP altos dividendos de publicidade.
Quanto a mim, “Eurofan” de há muitos anos, racionalizada a “coisa”, isto até nem é mau de todo. É uma vingança. Se passámos anos a enviar à Eurovisão, os nossos melhores intérpretes e canções, os quais foram sempre transformados em lixo pelas pontuações miseráveis que sempre nos atribuíram, então tomem lá lixo e vejam se o aproveitam como fizeram há quatro anos com uma banda de monstros que veio da Finlândia e que venceu o Festival sem que qualquer dos seus membros mostrasse sequer a cara.
Não me parece que tenhamos grande resultado, mas tudo é possível, apesar de estarmos numa primeira semi-final repleta de países nórdicos e com pouca sensibilidade para estas bandas de uma loucura demasiado latina.
E depois, bem vistas as coisas, a Europa até nem vai estranhar esta nossa performance, porque se tem estado atenta ao que nos últimos anos temos enviado aos Conselhos Europeus, estará familiarizada com o ridículo e a palhaçada. No fundo, entre o Jel e o José só muda o corte dos fatos e o bom gosto das camisas, o resto é tudo igual, tudo muito mau, tudo demasiado rasca.

4 comentários:

  1. Amigo, escreves cada vez melhor! Acertas no alvo e com uma contundência...
    Não podia estar mais de acordo!

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  2. Caro Joaquim, já fui também um "eurofan" mas há muito tempo que não vejo esse concurso e penso que não tenho perdido muito. Desta vez, estou em completo acordo, a RTP e os seus mais diletos apaniguados excederam-se. Aquilo (desculpe mas não lhe posso chamar canção) não tem pés nem cabeça. É, sobre todos os títulos, uma porcaria e, diria mesmo um pleonasmo incorrecto a um tempo que teve a sua razão de ser. Concluindo, infelizmente as nossas "macacadas" já começam a ser bem conhecidas no exterior portanto não será esta que inovará. Um abraço.

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  3. Meu caro Joaquim já nada me estranha, ainda este fim de semana, o protesto da Geração à Rasca mais parecia o festival de Torres Vedras! Portugal e os portugueses têm aquilo que merecem, têm o governo que merecem, os protestos que merecem e também o festival da canção que merecem. Se não nos levamos a sério como queremos que nos levem a sério. Confesso que já há muito tempo que deixei de ser fâ deste evento, mas que me preocupa a imagem que vamos deixar mais uma vez junto dos nossos colegas europeus...lá isso preocupa.
    Paulo Eduardo

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  4. ...para que fique claro que não sou contra os protestos populares, acho que quem está de facto desiludido com o estado das coisas, não deve fazer um protesto onde tudo pareça uma enorme festa, afinal de contas festejam o quê?

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