sábado, 5 de dezembro de 2015

De quantos abraços foi espelho este rio…



O Tejo é por esta hora sem luar, um imenso manto negro que a ponte ao fundo rasga de luz.
Por isso se revela na brisa, muito mais do que por qualquer detalhe que nos enfeitice o olhar, aqui em frente ao Bugio, onde se entrelaça de paixão com o Atlântico e lhe entrega mil vidas que beijou no seu lento passo entre Albarracin e Lisboa.
De quantos abraços foi espelho este rio...
Na sala em que o soalho range de cansaço pelos anos que já viveu, há um recanto mal iluminado onde um sofá está estrategicamente colocado em frente a uma janela baixa que dá para o Tejo e para o Bugio.
Porque lê aquilo que eu escrevo diariamente, o Eduardo sugere-me aquele local como pouso para a minha escrita, e eu prometo-lhe, a ele e à Ana Isabel...
- Amanhã escreverei sobre este recanto discreto que de longe parece uma despensa.
Conhecemo-nos há trinta e um anos, nós e os quarenta amigos que foram chegando entretanto para jantar.
Os nomes já falham por entre a traição do tempo e da memória, os cabelos mudaram de cor, sendo que os delas foi por opção e os nossos, quando persistem, mudaram por destino...
Parece que só as gargalhadas e as histórias permanecem iguais, coladas à essência e à genética, neste não sei que de afecto que persiste e se revela indestrutível.
Conhecemo-nos tão bem pelo riso, pelas palavras e pelo jeito com que as dizemos.
Somos todos farmacêuticos e despedimo-nos da Faculdade em 1990 para irmos viver ali algures intensamente num breve instante.
Entre Albarracin e Lisboa...
Voltámos ontem para um jantar em frente ao rio, nosso cúmplice no passo entre margens definidas pelo querer, para o mesmo destino que jamais se apagará como o riso e as palavras: o mar.
Nós como o Tejo.
De quantos abraços foi espelho este rio…

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