sexta-feira, 11 de setembro de 2015

PAI


Sou muito pequeno para a cadeira de barbeiro cujo assento vais virando à medida que os clientes vão entrando e saindo; e por isso, antes que eu me sente, colocas um monte de jornais velhos devidamente atados que me oferecem a altura de um homem.
Depois, sinto-me bem com o pano branco que cheira a Sabão Clarim e que me envolve aparando as ondas do cabelo castanho que vais cortando aos poucos.
Escuto o ruído da tesoura afiada junto aos ouvidos e sinto o teu respirar como se estes minutos fossem partículas de um imenso beijo.
Pai, o tempo passou desde esse tempo em que me cortavas o cabelo na barbearia do padrinho João Ramos, à Rua de Cambaia; e eu cresci...
Foste tu que continuaste sempre a pôr palavras, não de jornais mas de vida, para eu chegar à altura que tenho hoje, a dimensão feliz de um homem tecido pela liberdade.
És tu que não desistes de me envolver com o amor de um beijo que nunca deixamos que termine.
E os cabelos já não são castanhos e já se tingiram do cinza do tom dos teus… sou eu a caminhar pelo tempo e a querer ser igual a ti.

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