terça-feira, 1 de setembro de 2015

XADREZ


O comboio saiu há pouco de Santa Apolónia, o Tejo à minha direita e a velocidade cada vez mais alta. Chegarei a Castelo Branco por volta do meio-dia.
Conforme o estranho convite que recebi, alguém estará à minha espera na estação. A pedido, levo no bolso o rei negro do xadrez com que sempre brinquei em pequeno, e temo que tudo isto seja uma estranha “xarada”.
A mulher ao meu lado veio do Brasil onde esteve emigrada e traz com ela o neto a quem chama de “meu xodó”. O rapaz aí com uns cinco anos toca de forma irritante, um xilofone colorido, e já chorou a gritos soltos quando a avó tentou dar-lhe o xarope para a tosse.
O Ribatejo, a Beira…
O comboio para finalmente na plataforma de Castelo Branco, eu desço e sou de imediato interceptado por um senhor com uma idade algures pelos sessenta anos que se identifica como o meu motorista.
- Tenho uma carrinha lá fora.
- Posso passar pela Casa de Banho?
- Claro. Esperarei por si já no interior da carrinha de cor cinzenta.
Não me demoro, saio do edifício da estação e vislumbro facilmente o homem encostado à carrinha. Entro e fico espantado porque a mulher “Brasileira” também está lá dentro com o neto.
Sorrimos um para o outro e eu percebo que alguma reciprocidade no seu ar de espanto. Sento-me ao lado do condutor e entre mim e a mulher, que segue no banco de trás, há um xaile negro pendurado. Conheço estes xailes das Casas de Fado.
O homem leva-nos pelas estradas à sombra de enormes plátanos, sem que qualquer um de nós ouse dizer uma palavra sequer. Até o rapaz se calou e partilha connosco o ar de mistério. Depois, a carrinha vira para Monsanto e começa a subir até que a meia encosta se detém à porta de um imenso casarão de granito com uma entrada enorme com chão de xisto.
- Chegámos.
Anuncia o condutor.
Saímos um a um e dirigimo-nos para a entrada da casa onde a porta estava aberta e uma rapariga nos esperava.
- Sigam-me que vou levá-los até à senhora.
O corredor era imenso e largo levando-nos até uma sala onde uma senhora com aparência de uns oitenta anos nos esperava sentada junto a uma mesa de jogo. Sobre a mesa um tabuleiro de xadrez.
- Obrigado por terem vindo.
Falou a senhora que vestia de negro e tinha um ar solene.
Continuou:
- Trouxeram as peças?
Eu puxei pelo Rei negro e a minha companheira de viagem pela Rainha, também negra.
O tabuleiro ficou completo.
Depois de nos ter mandado sentar, a nossa anfitriã continuou a falar.
- Há cinquenta anos eu cantava numa Casa de Fado no Bairro Alto e acabei por me envolver em grande paixão com um cliente habitual, o Miguel de Lucena, filho do Conde de Monsanto, o dono desta casa. A paixão levou-o a querer casar comigo mas eu sabia estar grávida de quatro meses, fruto de um relacionamento ocasional com um empregado do restaurante, o Manuel Alentejano. Esperámos pelo parto e viemos os dois viver para aqui. Nasceram duas crianças; um rapaz que entreguei num orfanato em Xabregas e uma rapariga que ficou ao cuidado de umas freiras que viviam no Convento dos Cardais.
E continuou:
-Mas nunca vos perdi de vista até hoje, exactamente um mês depois de ter ficado viúva. A Rainha, a peça mais valiosa, e o Rei, o tal que jamais poderá ficar encurralado num Xeque-mate que mate o jogo.

(“Um mês A GOSTO” / Letra X / A história que me ocorreu com as palavras propostas por Sónia Sevivas, Margarida Garimpo, Patrícia Lopes, Joaquim Sousa, Fernando Pires, Carla Antunes, Antónia Ruivo, José Domingos Ferreira, António Tavares, Mário Ribeiro, João Loureiro, António Augusto)

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